sexta-feira, 14 de março de 2008



Descendo lentamente, e esperando o alívio que planejara sentir, deparou-se com o verde dos olhos dela em sua mente. Um verde agora em tom escuro, um olhar agora sem brilho. A nitidez daquele pensamento causou-lhe arrepios. Sabia que ninguém a escutava, no entanto não compreendia por que suas súplicas desesperadas ainda ecoavam em sua cabeça. Ainda que lutasse para acreditar ser merecido o fim que a aguardava, a certeza de que nunca mais diria bom dia a seu anjo roubava-lhe qualquer esperança de alívio. Ao projetar a imagem daqueles olhos fechando-se para sempre, a dor que lhe invadiu o coração, tão intensa, tirou-lhe a força do corpo. Ricardo foi ao chão como se o tivessem nocauteado.
- Minha querida... – balbuciou ao esfregar os braços desejando retirar o arrependimento que agora o envolvia.
Em meio a lágrimas cogitou a hipótese de resgatá-la... “Não!” O lapso de coerência foi logo abafado pelo mesmo sentimento obsessivo que o levou a trancá-la junto aos mortos. Raquel voltaria para os braços do outro. Preferia entregar sua amada à morte a passar o resto de seus dias sabendo que há outro fazendo-a sorrir.
Respirando a poeira que se desprendia da lama seca daquela ladeira avistou estilhaços de uma garrafa no chão. Pensou serem muito convenientes aqueles cacos de vidro ao perceber que seria incapaz de viver sem a imensidão daqueles olhos verdes. Agarrando o pedaço mais afiado mirou o infinito do céu - as rugas haviam voltado - almejando alguém que pudesse perdoar seus pecados.
Olhando para seu último pôr-do-sol, Ricardo rasgou a própria garganta.

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