
Ela esfregou o rosto arranhando a parte inferior dos olhos com suas longas unhas. A tinta preta, que antes enconbria seus cílios, permaneceu estampada na pálida pele. Retirou do largo bolso de seda o estojinho francês; percebeu a mancha, ao mirar-se no espelhinho, e homogeneizou a branca pele com o pó-de-arroz. Corou artificialmente sua magra maçã do rosto ganhando a aparência tétrica de uma falsa boneca de porcelana. Preencheu de vermelho seus finos lábios assemelhando-se a uma prostituta barata. Fez de seus ossudos dedos um pente tentando alisar o cabelo.
Cada parte de seu rosto, agora, condizia com a ausência de vida em seus olhos; formou-se uma máscara. Escondida atrás daquela nova fisionomia sentiu-se encorajada. O delicado roupão escorregou por seu esguio corpo e, não por despudor, mas por sentir-se a um passo da liberdade eterna, deixou-se despir sem vergonha alguma.
Derramou duas lágrimas apenas. A primeira contornou rapidamente o irregular nariz até parar intensificando o brilho do batom - um brilho contraditório, que destoava daquele fúnebre rosto -, a última projetou-se vagarosa e pesadamente, como se cheia de culpa, pelo outro canto do olho. Somente o olho esquerdo havia chorado.
A ambigüidade em seu coração dissipara-se, qualquer lapso de agonia era agora transformado em alívio. Não havia mais dúvidas, não havia mais martírio. O olhar morto encheu-se de esperança. Ela buscou seu destino e o encontrou já no primeiro passo.
Estava livre antes que a corda lhe tirasse a vida.