Sentada à mesa, ela vaga em meio às letras, perdida nas entrelinhas de um conto do qual nem lembra o nome. Sua mente se distrai nas risadas daqueles seres inanimados, até os óculos que antes lhe clareavam o mundo, agora pareciam apertar-lhe com força a cabeça e embaralhar sua visão.
A mulher que já não sente seu corpo como seu, e que a inocência jamais conheceu, vê seus fantasmas retornando em busca de uma loucura adormecida.
"Não vens pra cama?"
"Daqui a pouco."
Ela o responde de forma automática, reproduzindo novamente o único diálogo remanescente na relação. Quem é este homem com quem ela divide seu leito há tantos anos? O que ela é para ele?
Aquela velha falha na sanidade voltara a aflorar em sua mente. Os sentimentos que tanto lhe perturbam cruzam sem piedade seu corpo que permanece imóvel como se seus pensamentos pertencessem somente a seus olhos quase cegos.
O desejo de gritar é abafado pela falta de coragem. Esse grito suprimido revira-lhe o estômago e uma imensa angústia trava-lhe a garganta, ainda assim seus olhos já completamente vazios recusam-se a aliviá-la do sofrimento, nada de lágrimas. Tudo é contido.
Gemidos de prazer rumam do quarto até seus ouvidos relutantes, enojada ela se dá conta de que se tornara dispensável. Ou será que sempre fora dispensável e agora é simplesmente recusável?
Vontade de se libertar. Vergonha do que poderiam enxergar em seu corpo estirado no chão, aquela carcaça castigada, vulnerável e totalmente inútil. Sonho de fuga. Medo de seguir qualquer idéia própria. Que pensariam eles? Todos eles hipócritas! Silêncio mental. Cautelosa mulher, não quer sentir a coerência do que pensa. Eles têm de estar certos, ou sua vida fora em vão. Tarde demais para recomeçar, é ridículo querer o inusitado. Pobre mulher desiludida.
Seu corpo reage em repressão à mente. As mãos trêmulas, num movimento involuntário, seguram a testa sempre enrugada como se pudessem segurar seus pensamentos. Ela contorce a boca, morde os lábios, luta contra um corpo que lhe rouba a alma.
Nada de lágrimas, nem um curto choro lhe é concedido. Fecha os olhos, não por cansaço, apenas para privar-lhes do mundo. Está sozinha. Não vê mais os objetos, apagaram-se os inimigos. Pobre mulher iludida.
Um colorido mágico percorre-lhe a imaginação. Uma dormência suave domina-lhe as extremidades. Não sentiu o rosto tocar as páginas do livro ainda aberto. Sente apenas o vento delicado que toca cada parte de seu corpo agora leve, solto e aberto. Sem pudor algum ela se deixa levar numa queda constante. Não sabe aonde chegará, não precisa saber. Saboreia este lugar em que nada existe. Este que é na verdade um lugar onde tudo faz parte de tudo. Ela se sente agora parte do todo, imprescindível àquele perfeito equilíbrio.
Assusta-se ao ter seu paraíso invadido.
"Acorda! Vais perder a hora."
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