quinta-feira, 23 de abril de 2009

Lapso de lucidez

Sentada à mesa, ela vaga em meio às letras, perdida nas entrelinhas de um conto do qual nem lembra o nome. Sua mente se distrai nas risadas daqueles seres inanimados, até os óculos que antes lhe clareavam o mundo, agora pareciam apertar-lhe com força a cabeça e embaralhar sua visão.
A mulher que já não sente seu corpo como seu, e que a inocência jamais conheceu, vê seus fantasmas retornando em busca de uma loucura adormecida.
"Não vens pra cama?"
"Daqui a pouco."
Ela o responde de forma automática, reproduzindo novamente o único diálogo remanescente na relação. Quem é este homem com quem ela divide seu leito há tantos anos? O que ela é para ele?
Aquela velha falha na sanidade voltara a aflorar em sua mente. Os sentimentos que tanto lhe perturbam cruzam sem piedade seu corpo que permanece imóvel como se seus pensamentos pertencessem somente a seus olhos quase cegos.
O desejo de gritar é abafado pela falta de coragem. Esse grito suprimido revira-lhe o estômago e uma imensa angústia trava-lhe a garganta, ainda assim seus olhos já completamente vazios recusam-se a aliviá-la do sofrimento, nada de lágrimas. Tudo é contido.
Gemidos de prazer rumam do quarto até seus ouvidos relutantes, enojada ela se dá conta de que se tornara dispensável. Ou será que sempre fora dispensável e agora é simplesmente recusável?
Vontade de se libertar. Vergonha do que poderiam enxergar em seu corpo estirado no chão, aquela carcaça castigada, vulnerável e totalmente inútil. Sonho de fuga. Medo de seguir qualquer idéia própria. Que pensariam eles? Todos eles hipócritas! Silêncio mental. Cautelosa mulher, não quer sentir a coerência do que pensa. Eles têm de estar certos, ou sua vida fora em vão. Tarde demais para recomeçar, é ridículo querer o inusitado. Pobre mulher desiludida.
Seu corpo reage em repressão à mente. As mãos trêmulas, num movimento involuntário, seguram a testa sempre enrugada como se pudessem segurar seus pensamentos. Ela contorce a boca, morde os lábios, luta contra um corpo que lhe rouba a alma.
Nada de lágrimas, nem um curto choro lhe é concedido. Fecha os olhos, não por cansaço, apenas para privar-lhes do mundo. Está sozinha. Não vê mais os objetos, apagaram-se os inimigos. Pobre mulher iludida.
Um colorido mágico percorre-lhe a imaginação. Uma dormência suave domina-lhe as extremidades. Não sentiu o rosto tocar as páginas do livro ainda aberto. Sente apenas o vento delicado que toca cada parte de seu corpo agora leve, solto e aberto. Sem pudor algum ela se deixa levar numa queda constante. Não sabe aonde chegará, não precisa saber. Saboreia este lugar em que nada existe. Este que é na verdade um lugar onde tudo faz parte de tudo. Ela se sente agora parte do todo, imprescindível àquele perfeito equilíbrio.
Assusta-se ao ter seu paraíso invadido.
"Acorda! Vais perder a hora."

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A dor quando se torna alívio é preocupante; não que eu seja do tipo que se surpreende com o bizarro, mas essa dormência que me relaxa enquanto o sangue escorre começa agora a me assustar. As cicatrizes que desenham minha pele não se comparam às marcas que estou deixando em minha sanidade, um início de loucura.
Amo minhas cicatrizes porque amo meu passado. Amo minha vida, incondicionalmente.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Meu estranho amor


Eu não te conheço, mas te amo. Te idealizo como a perfeição de meus conceitos. És minha fuga da realidade. Meu amparo no sofrimento. Meu conto de fadas.
Não te quero sempre, mas de ti preciso para sempre. Meu príncipe sem defeitos, tuas imperfeições são o meu vício.
O amor, finjo que sinto; faço de ti meu desespero.
Não és nada do que almejo, és a distorção do meu desejo.
Por ti meu coração palpita, dispara na sintonia da tua música. Teu sorriso é infiel, mas é tudo em que acredito. Teu rosto não é bonito, tuas idéias não são as minhas; ainda assim, é tua figura que me fascina.
Me descartas sem pensar. Me enfeitiças com o olhar.
Perco minha poesia na tua ausência.
Te amo, na inconsciência.