segunda-feira, 29 de junho de 2009

Instinto

A vergonha dela era imensamente maior que sua coragem. Não havia mais espelhos em seu quarto e ela se esquivava de qualquer reflexo na janela. Quando trocava de roupa evitava olhar as próprias pernas. Tinha nojo dele, e asco pelo medo que sentia. As cicatrizes ao longo de suas costas a impediam de usar os decotes que acentuavam suas curvas insinuantes. Já gastava mais com analgésicos e maquiagem que com comida. Aliás, comia apenas para continuar viva.



Enquanto ela traga pela segunda vez o cigarro que dividiam, ele termina de abotoar a calça. Veste a blusa e passa os dedos pelo cabelo; ela ainda solta, lentamente, a fumaça que paira de forma delicada sobre os lençóis. Após calçar sem esforço os sapatos, pressiona a boca contra seu pescoço sem beijá-la e, desviando o olhar daquele rosto que o fitava imóvel, dirige-se à porta. Não precisando destrancá-la, gira suavemente a maçaneta. A cinza suja a virilha desnuda dela, assim que a porta se fecha.

Ele apaga com força o quinto cigarro - que acompanhou a terceira dose de vodca. Ela aperta a parte interna de sua coxa por debaixo da mesa, e ele, em resposta súbita lhe agarra a nuca e ameaça um beijo, mas pára - tão próximo de sua boca que consegue sentir sua respiração ofegante. Com um sorriso malicioso, ele a faz tomar a iniciativa.

Ela esfrega a cinza, deixando uma mancha preta até o umbigo, ao mesmo tempo em que desliza na cama até se encontrar, desconfortável, na horizontal. Um pouco torta, ainda se mantém na mesma posição por alguns minutos. Repousa o corpo, que sofre calafrios, tentando não pensar.

Cidades inexistentes

Em meio a uma atmosfera cinzenta e pesada, os transeuntes de Lourdes vagam sem destino. Olhares perdidos buscando encontrar sua antiga cidade.
Ninguém habita Lourdes, ela apenas abriga pessoas esquecidas. Ninguém nasce em Lourdes, e também não constam mortes na cidade.
Nesse lugar vazio, qualquer um que entra, sente suas emoções se esvaindo. Lourdes, essa cidade invejosa, arranca lentamente a vida daqueles que nela caem.
É preciso ter cuidado ao passar por lá, para não se tornar mais uma das criações alienadas de Lourdes.