
Vou tentar o número com as garrafas agora, só espero que faça mais sucesso do que nas noites passadas... É a parte mais elaborada do meu repertório, não pode dar errado... Mas já deu! Só que hoje vai ser diferente. Ah vai, mal comecei e já estou vendo uns sorrisinhos esboçados! Mas... O garoto não está olhando para mim, do que está rindo então? O que foi garoto? Tem mais algum palhaço aqui? É o careca do teu pai que está fazendo gracinha? Ah, é claro... O cara do algodão-doce. Come pirralho, come. Vai ficar obeso igual ao pai...
Cara de velho, corpo de velho, dor de velho... Quarenta e sete anos e me sinto com oitenta. Dizem que com a idade vai-se ficando mais interessante... Se minha careca não refletisse toda a tenda do picadeiro, eu até que teria meu charme.
Ai risadinhas, risadinhas e gargalhadas! Tão ausentes quando preciso e tão insistentes quando as desprezo. Se ainda estivesse cuidando dos elefantes, não estaria assim frustrado. Frustrado... Quem é o culpado por essa minha frustração? Eu? Eles? Aqueles? Outros? Sempre funcionou! Sempre! Meu show, há três décadas, vem sendo o mais aclamado. Quero dizer, vinha... As crianças divertiam-se já nas primeiras mímicas, olhavam curiosas para a minha fantasia querendo descobrir cada detalhe, apertavam meu nariz assustando-se ao sentir que era de plástico, perguntavam-me por que meus sapatos eram tão grandes e meus cabelos tão coloridos, riam com gosto quando apertavam a flor no meu paletó e se surpreendiam com o esguicho d’água que dela saía... Acabou?
“Fredo, Fredo! Tu fazes a platéia rir meu caro, ou pelo menos deverias... O que anda acontecendo? Algum problema? Precisas de um tempo?” Ora, se eu preciso de um tempo? Dediquei todas as noites, dos meus últimos trinta anos, ao circo. Se eu quero um descanso? Não terei minha juventude de volta, para aproveitá-la sem um grande nariz vermelho na cara, descansando... O que é isso? Que estou pensando? Eu amo o que faço. É o que me faz viver. “Não Pepe, não. Estou bem. Há de ser apenas um pouco de má sorte!” Como é hipócrita esse Pepe! ‘Algum problema?’ Se eu estivesse ajudando no lucro do circo, não haveria tal pergunta. Mas quem é que vai ligar pro palhaço? A figura risonha, de constante bom humor... O desajeitado. Patético. Flácido. Coitado. O filho, sem talentos, dos grandes astros do circo.
“O Fredo limpa cocô de elefante porque não consegue voar no trapézio! Tu sabes fazer alguma coisa, Fredo? Qualquer coisinha...” A solução era rir pra não chorar, ou melhor, fazer rir para não cair em depressão – ao menos não publicamente.
Cadê? Onde é que está aquela sensação? Parece que estou em um lugar completamente aquém ao meu picadeiro. Que expressões frias, olhares que me incriminam. Não estou fazendo algo de errado, acho até que estou fazendo nada! Que rostos vazios! Que imagem embaçada, que platéia ofuscada por... Não sei por quê... Que escuro...
“Fredo! Fred, Fred... Que susto! Estás melhor? Deve ter sido algo que comeste, meu bem. Logo estarás novinho em folha! Descansa, meu bem.” Ah, Madame Liz... Quem dera ter sido algo que comi. Se fosse, eu vomitaria, e me encheria de novas gargalhadas. “Obrigado Lili, mas acho que preciso andar um pouco.”
Um, dois, três, quatro e então a cambalhota... “Haha... Hahaha... Haha” O quê? Cinco, seis, sete, oito... Ah, de que adianta? A graça é justamente a improvisação. Algo com os lenços, assim... “HAHAHA... HAHA!” Quem? “Ora, que fazes aí moleque?” Atrevido, rindo da minha cara! “Estava divertindo-me com tuas palhaçadas, Fredo! Hahaha!” “Pois bem, sente-se aqui. Há muito mais de onde essas vieram!”
Estes rostos trêmulos, inquietos. Agitados por risos incessantes!